A Paixão Segundo GH
"A realidade antecede a voz que procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio. Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria -prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu. E é inútil procurar encurtar o caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crúcis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através e com ela. (...) O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? Como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então, adoro._ _ _ _ _ _ "
Tornar possível uma forma de comunicação que se efetive a despeito das falhas da linguagem, ou melhor, aceitar a precariedade da linguagem e, sobre essa precariedade, fundamentar uma nova forma de comunicação - aí está um dos centros de A Paixão Segundo GH. Há uma ambivalência essencial aqui: apesar de precária, a linguagem fundamenta todo um mundo. E aí reside nosso problema: vivemos e somos-em um mundo precário, tal como nossa linguagem, comunicação e compreensão.
Não é simples viver tendo consciência disso. Por esta razão, é necessária a trajetória, como diz a narradora-personagem desse livro impressionante. A desistência da inteireza, a aceitação da incompletude, é nosso prêmio. Sabermo-nos signos que circulam, deslizam e trocam significados nessa rede de signos que é o mundo é nossa chegada, destino final.
Escrito por Lu às 23h52
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