Ainda uma questão de imagem

Em um dos capítulos de seu livro mais recente, Jurandir Freire Costa discute as implicações do corpo em psicanálise e distingue, na formação do eu, três aspectos correspondentes a manifestações distintas do corpo físico. Um trecho:
"O primeiro é o mais geral e está na gênese dos subsequentes. De modo breve, trata-se de uma forma totalizadora do narcisismo. O eu , na formação narcísica, se autopercebe como uma gestalt contínua, derivada da percepçao imaginária do corpo como um envelope fechado. Em outras palavras, a identidade egóica é modelada pela imagem corporal que atende às demandas do outro - pais, adultos significativos, figuras culturais ideais - atribui ao sujeito uma completude física, emocional e moral proporcional à sua fantasia de perfeição e exige em troca a submissão a esse ideal.
Uma vez preso na montagem, o sujeito usará a sua imagem corporal para sustentar o interesse do outro por si. As qualidades sentimentais ou morais que se acrescentarão a esta imagem apenas virão a reforçar o desejo de responder ao desejo de perfeição do outro. O eu, pelo resto da vida, tenderá a fazer da imagem corporal a moeda de troca na transação com o outro idealizado. Freud, apoiado na clínica, afirmava o que as teoria ecológicas da percepção e da cognição vieram a confirmar: somos, em grande medida, aquilo que imaginamos causar no outro, e gozamos, em grande medida, com o usufruto dessa condição. Nosso desejo é o de fazer o outro nos desejar, e nossa satisfação consiste em alcançar, na realidade ou na imaginação, o que antecipamos de forma imaginária."
FREIRE COSTA, Jurandir. "Considerações sobre o corpo em psicanálise." In: O Vestígio e a Aura - corpo e consumismo na moral do espetáculo. Ed. Garamond, col. A lei do desejo, 2004.
Escrito por Lu às 18h36
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Questão de Imagem

Somos quem o outro enxerga?
Questão de Imagem é um filme que nos conquista aos poucos, enquanto vamos nos aproximando um pouco mais da personagem central, ironicamente batizada de Lolita.
Lolita é uma jovem recém-saída da adolescência, que tem talento para a canção lírica e uma auto-estima que não passa de dois centímetros. Seu pai é um famoso e egocêntrico escritor e editor, que passa por um circunstancial writer's block. Paralelamente, há a professora de canto de Lolita, casada com um escritor que se inicia nos caminhos da fama, e que é grande admiradora do pai da menina. Também aos poucos, a imagem que ela tem dele vai mudar radicalmente.
Lolita é gorda. De forma mais ou menos sutil, o filme vai deixando pistas de como isso pode gerar problemas muito mais objetivos do que subjetivos. Não é apenas a auto-percepção de Lolita que é influenciada por esse fato mas, principalmente, a percepção que os outros têm dela. Ou seja, sai o velho chavão: 'ela é complexada', entra o bem atual 'pessoas bonitas são mais bem tratadas pelo mundo'.
Questão de imagem.
Mas o filme não fala apenas sobre a importância da beleza. Ele se pergunta até que ponto nos deixamos influenciar por poder e beleza em nossas relações sociais e profissionais. Pergunta onde está nossa lealdade. E mostra como somos fúteis e superficiais.
O filme mostra como o repentino sucesso de um dos livros de Pierre ('Comme Une Image') faz com que ele e sua esposa afastem-se de amigos antigos, privilegiando a rede de relações de Etienne, o pai de Lolita.; como sua professora de canto passa a tratá-la diferente depois que descobre quem é seu pai; como pessoas consideradas bonitas são mais 'visíveis', percebidas socialmente.
Uma cena emblemática acontece na casa de Etienne, após a apresentação do grupo de canto lírico de Lolita. A menina havia presenteado seu pai com uma fita de seus estudos há mais de seis meses, e ele ainda não havia ouvido; no dia da apresentação, ele retira-se no início da participação da filha, e volta no final, não podendo fazer comentários sobre seu desempenho. Na recepção a amigos em sua casa, comenta com uma colega da filha -belísima- que ela é muito talentosa e fará muito sucesso, também sem tê-la ouvido. Desnecessário dizer que isso é apenas um detalhe em meio a tantos outros, mas que se dá em um momemnto importante do filme. Ao final, uma pequena e delicada rebelião contra os valores dominantes do grupo, realizada pela personagem mais observadora do filme, dá o tom ao 'final feliz' da história.
Fica a reflexão para o lado de fora da sala escura. Acredito piamente que não há quem escape ileso desses valores mais superficiais. No filme, nenhuma das personagens principais escapa, nem Lolita. Eu sei que eu não escapo. O que nos salva é a auto-crítica, informada pela nossa ética. É exatamente esse artigo que anda em baixa, atualmente.
'Comme Une Image' levou o prêmio de melhor roteiro, no Festival de Cannes.
.................................................... Diretor: Agnès Jaoui Elenco: Marilou Berry, Agnès Jaoui, Jean-Pierre Bacri, Laurent Grévill, Virginie Desarnauts, Keine Bouhiza, Grégoire Oestermann. Produção: Christian Bérard, Jean-Philippe Andraca Roteiro: Jean-Pierre Bacri, Agnès Jaoui Fotografia: Stéphane Fontaine Trilha Sonora : Philippe Rombi Duração: 105 min.
Escrito por Lu às 05h41
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A Antropologia Planetária de Sebastião Salgado

Sebastião Salgado tem um novo projeto, chamado Gênesis: ele planeja viajar a lugares onde a influência da civilização ocidental não é sentida como na maior parte do planeta. Segundo Salgado, 46% do planeta não foi seriamente prejudicado com a ação humana. Ele buscará contato com povos como os nômades Dinca, no Sudão, e os índios Huicholes, no México, entre outros. O projeto tem uma duração estimada em 8 anos.
Como no Princípio do Mundo
A liberdade de se viver de acordo com as próprias convicções é uma das coisas que podem nos tornar mais humanos, menos automáticos, mais pensantes. Pena que é tão rara. Ter convicções tão contrárias ao movimento geral do mundo pode gerar certa solidão mas, poder agir, ainda que de forma tão 'idealista', diminui muito a impotência, a imaginada e a real.
Escrito por Lu às 11h34
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Quadros
Meu antigo blog chamava-se Tornando os Pensamentos Visíveis. Eu era otimista, e não sabia. Subsolo reflete melhor meu estado de espírito mais recente. O primeiro título vinha de uma frase de Magritte, que dizia buscar exatamente isso com seus quadros; por que eu não poderia tentar o mesmo com as palavras? O segundo vem de Memórias do Subsolo, de Dostoiévski, um livro menos do que solar, onde se sabe que as palavras podem confundir mais do que tornar algo visível.
Entretanto, saindo do cinema, hoje, que me deixou com uma sensação de solidão e de desamparo incrível, li essa pergunta de Clarice:
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?
Eu acreditava que sim, mas minhas pinceladas andam pouco vigorosas. E mesmo as pseudo-epifanias exigem mais do que isso.
***

Assisti a Ninguém Pode Saber, na Uff. Sessão das 21:00, atrasada em 15 minutos e com uma interrupção de 5. Resultado: saí do cinema perto da meia-noite. Deprimida, quase.
Costumo gostar de filmes que me façam sentir com as personagens, mas nesse até isso é impossível. Claustrofóbico, ele me obrigou a assistir, impotente, à descida daquelas crianças abandonadas, que não eram nada para ninguém, a não ser por uma menina, amiga delas. Muito provavelmente saí do filme triste com meu próprio desamparo, voltada para dentro que sou. E impossível não lembrar de minha mãe que, se não me abandonou, partiu cedo demais.
Escrito por Lu às 01h18
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58º Festival de Cannes
Bis para os irmãos Dardenne
Em matéria de cinema, a diferença entre meu momento hoje e aquele quando existia o antigo pseudo-epifanias é enorme: na época, o circuito cinema-teatro-música era muito intenso; hoje... Bom, apenas para dar um exemplo, assistirei a Kill Bill vol.2 hoje à tarde.
Deu para ter uma idéia, não é?
Enfim, ao ler a lista dos vencedores da edição 2005 do Festival de Cannes, essa diferença se faz sentir muito claramente: ah, quer dizer, então, que os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne dirigiram um outro filme, depois de O Filho? Amos Gitai é o diretor de Free Zone? E quem é mesmo Hanna Laslo?
Fica, então, o resultado de algumas categorias:
Palma de Ouro: L'enfant (Jean-Pierre e Luc Dardenne)
Grande Prêmio: Broken Flowers (Jim Jarmusch)
Melhor direção: Michael Haneke (Hidden)
Melhor ator: Tommy Lee Jones (The Three Burials of Melquiades Estrada)
Melhor atriz: Hanna Laslo (Free Zone)
Melhor roteiro: Guillermo Arriaga (The Three Burials of Melquiades Estrada)
Prêmio Especial do Júri: Shanghai Dreams (Wang Xiaoshuai)
Uma última observação: Free Zone é imperdível porque traz de volta Carmen Maura, inquestionavelmente maravilhosa.
Escrito por Lu às 12h56
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